Como transformar um relato de experiência em artigo acadêmico no Serviço Social: um passo a passo possível
- João Rafael

- 20 de mar.
- 10 min de leitura
Muita assistente social olha para a escrita acadêmica como se ela fosse um território distante, técnico demais, quase inalcançável.
Mas, na prática, o problema nem sempre é falta de experiência. Muitas vezes, o que falta é método para organizar aquilo que já foi vivido, pensado e enfrentado no trabalho profissional.
Foi exatamente esse o movimento trabalhado na oficina do Articula – Laboratório de Escrita Crítica: mostrar que uma assistente social não começa um artigo do nada. Ela começa da realidade concreta, da experiência, do objeto que definiu e da finalidade que quer alcançar com o texto.
E talvez essa seja a virada mais importante: o artigo não nasce de uma inspiração repentina. Ele nasce de uma construção.
Neste texto, organizei o passo a passo trabalhado na oficina, com exemplos concretos discutidos coletivamente, para ajudar você a transformar seu relato de experiência em um artigo acadêmico.
Antes de pensar no artigo, é preciso entender uma coisa
Não se faz trabalho acadêmico sem definição de objeto.
Na verdade, não se faz trabalho nenhum sem isso.
O pedreiro, o engenheiro, o arquiteto, a professora, a assistente social: todas as formas de trabalho exigem a definição daquilo sobre o que se vai agir. No caso da escrita acadêmica, isso significa saber o que exatamente você quer estudar.
Por isso, nas oficinas anteriores do Articula, o ponto de partida não foi “escrever bonito” e nem “achar um tema interessante”. O ponto de partida foi a definição do objeto.
Depois disso, veio o objetivo.
Porque, se o objeto responde ao que será investigado, o objetivo responde à finalidade da investigação. Em outras palavras: o objeto indica o foco; o objetivo indica a direção.
O caminho construído até aqui: do resumo simples ao artigo
Na oficina, o percurso foi pensado em etapas.
Primeiro, trabalhamos a elaboração de um resumo simples. Para isso, as participantes responderam três perguntas centrais (clique aqui para aprender primeiro o resumo simples!).
Depois, aprofundamos o exercício e avançamos para as seis perguntas, o que já permitia sair do resumo simples e caminhar para um resumo expandido (clique aqui para aprender a transformar o resumo simples em resumo expandido!).
Esse ponto é importante: muita gente acha que artigo é uma coisa completamente diferente do resumo. Não é.
O artigo parte da mesma base. A diferença é que ele exige maior desenvolvimento, maior articulação e mais fundamentação.
Ou seja: quem já conseguiu construir um bom resumo simples ou um bom resumo expandido já não está no ponto zero.
Está mais perto do artigo do que imagina.
O primeiro passo: definir corretamente o objeto
Na oficina, retomamos uma formulação que venho trabalhando: o objeto precisa conter três elementos.
Tema + onde + quando.
Isso ajuda a evitar formulações vagas, abertas demais ou genéricas.
Não basta dizer, por exemplo, “autonomia do assistente social”. Isso ainda está solto. Falta situar onde essa autonomia está sendo analisada e em qual período.
Um objeto melhor definido seria algo como:
A autonomia de assistentes sociais no sistema prisional de Parnaíba entre 2015 e 2022.
Aqui, já temos:
o tema: autonomia de assistentes sociais no sistema prisional;
o onde: Parnaíba;
o quando: 2015 a 2022.
Essa definição dá materialidade à escrita. E sem materialidade, o texto vira abstração.
O segundo passo: formular o objetivo geral
Depois do objeto, entra o objetivo geral.
Na oficina, a orientação foi bastante simples: para artigo, especialmente quando estamos falando de relato de experiência, não é necessário complicar com vários objetivos específicos.
A sugestão foi trabalhar com um objetivo geral apenas, formulado com:
verbo no infinitivo + objeto
Por exemplo:
Compreender a autonomia de assistentes sociais no sistema prisional de Parnaíba entre 2015 e 2022.
Ou:
Refletir sobre o trabalho da assistente social com mulheres que sofreram tentativa de feminicídio no Instituto UNO entre 2022 e 2026.
Essa formulação ajuda a manter o texto coeso. O artigo fica mais direto, mais nítido e menos disperso.
O terceiro passo: entender que o artigo não começa pela introdução
Esse é um ponto que costuma surpreender muita gente.
Na oficina, destaquei que introdução e considerações finais são as últimas partes a serem escritas.
Isso mesmo.
O artigo não começa pela introdução. O artigo começa pelo desenvolvimento.
Primeiro, você organiza aquilo que efetivamente quer discutir. Depois, quando já souber com clareza o percurso do texto, escreve a introdução. E, quando concluir esse percurso, escreve as considerações finais.
Essa inversão facilita muito a vida de quem trava diante da página em branco.
O quarto passo: perceber que sua experiência não entra no começo do artigo
Aqui apareceu uma imagem que ajudou bastante o grupo: a ideia da “cereja do bolo”.
As respostas dadas às seis perguntas nas oficinas anteriores — isto é, o seu relato de experiência já estruturado — foram comparadas à cereja do bolo.
E onde a cereja entra?
No final.
Isso quer dizer que, na proposta trabalhada na oficina, a experiência concreta não entra logo de início no desenvolvimento do artigo. Antes disso, é preciso construir o caminho que sustenta essa experiência.
Em termos práticos, o artigo pode ser organizado assim:
introdução;
desenvolvimento, com um começo e um final;
considerações finais;
referências.
No desenvolvimento, a parte final é justamente aquela em que você traz, de modo mais direto, o seu relato de experiência, agora articulado com fundamentos teóricos, éticos, políticos, jurídicos e normativos, quando for pertinente.
O quinto passo: construir o começo do desenvolvimento com dois temas do objeto
Se a experiência é a “cereja do bolo”, então o que vem antes?
Na oficina, a proposta foi esta: o começo do desenvolvimento deve ser construído a partir de dois temas extraídos do objeto.
Ou, em alguns casos, de um tema explícito e outro implícito.
Isso significa olhar para o objeto e identificar quais discussões precisam aparecer antes de chegar na experiência concreta.
Vamos aos exemplos trabalhados na oficina.
Exemplo 1: trabalho profissional com mulheres que sofreram tentativa de feminicídio
Uma das participantes apresentou o seguinte objeto:
O trabalho da assistente social com mulheres que sofreram tentativa de feminicídio no Instituto UNO entre 2022 e 2026.
A partir dele, surgiram possibilidades de temas para o desenvolvimento.
Uma colega sugeriu feminicídio.
Outra sugeriu trabalho de assistentes sociais.
Ambas as sugestões faziam sentido.
Nesse caso, uma possível construção seria:
discutir feminicídio;
discutir o trabalho de assistentes sociais com mulheres;
depois, chegar à experiência concreta no Instituto UNO com mulheres que sofreram tentativa de feminicídio naquele período.
Mas essa não era a única possibilidade.
Outra forma possível seria:
discutir o trabalho de assistentes sociais de forma ampla;
depois, afunilar para o trabalho de assistentes sociais com mulheres;
e, só então, chegar ao objeto propriamente dito.
Perceba: o artigo não precisa despejar tudo de uma vez. Ele pode ir do mais amplo ao mais específico.
Exemplo 2: autonomia de assistentes sociais no sistema prisional
Outra participante trabalhava com um objeto ligado à autonomia de assistentes sociais no sistema prisional.
A partir disso, apareceram temas como:
sistema prisional;
autonomia;
trabalho de assistentes sociais.
Aqui aconteceu uma discussão importante: o tema “trabalho de assistentes sociais” não aparecia escrito literalmente no objeto, mas estava implícito nele.
E isso abriu uma chave metodológica muito importante: nem todo tema do desenvolvimento precisa estar explicitamente nomeado no objeto. Alguns estão contidos nele de forma implícita.
Nesse caso, uma construção possível seria:
discutir o trabalho de assistentes sociais;
depois discutir autonomia;
e, por fim, apresentar como essa autonomia aparece na experiência concreta no sistema prisional de determinada cidade, naquele período.
Outra possibilidade seria trabalhar pela lógica da interseção:
discutir sistema prisional;
discutir autonomia;
mostrar, ao final, como essas duas dimensões se cruzam no trabalho da assistente social.
Essa percepção amplia muito a capacidade de organização do texto.
Exemplo 3: mulheres em situação de rua, substâncias psicoativas e desejo de maternar
Outro objeto discutido na oficina foi:
O trabalho do assistente social junto a mulheres em situação de rua, usuárias de substâncias psicoativas, com desejo de maternar, em um hospital da rede pública do DF, entre 2024 e 2025.
A partir desse objeto, surgiram sugestões como:
trabalho de assistentes sociais;
trabalho de assistentes sociais com mulheres em situação de rua;
população em situação de rua;
mulheres em situação de rua;
maternidade/desejo de maternar.
O ponto central foi mostrar que havia várias portas de entrada possíveis, mas que o centro do texto continuava sendo o trabalho profissional.
Isso ajudou a deslocar uma angústia comum: a sensação de que “parece que a gente não faz nada”.
Na verdade, faz. O desafio é trazer isso para o papel com rigor.
Por isso, a orientação foi: não deixar o lugar institucional ocupar o centro da análise. O hospital aparece. A instituição aparece. As condições institucionais aparecem. Mas o centro do debate continua sendo o trabalho profissional e sua particularidade naquele contexto.
Exemplo 4: supervisão de estágio em hospital público
Outro objeto trabalhado foi:
Supervisão de estágio em hospital público do estado do Amazonas entre 2020 e 2025.
As sugestões de temas incluíram:
supervisão de estágio;
supervisão acadêmica e supervisão de campo;
trabalho de assistentes sociais enquanto supervisores;
supervisão de estágio no âmbito hospitalar.
Aqui apareceu uma preocupação metodológica muito importante: não restringir cedo demais a discussão bibliográfica.
Se a autora resolvesse discutir, logo de início, apenas a supervisão de estágio em hospital público no Amazonas, poderia encontrar pouca produção.
Então a sugestão foi afunilar com mais inteligência:
discutir supervisão de estágio de modo mais amplo;
depois discutir a supervisão no âmbito hospitalar;
por fim, trazer a experiência concreta ocorrida no hospital público do Amazonas.
Essa orientação ajuda a não sufocar o texto e a não transformar o objeto em um limitador precoce da fundamentação.
O sexto passo: fundamentar o texto — e não apenas descrever a experiência
Esse ponto foi tratado com bastante ênfase na oficina.
Responder às seis perguntas não basta.
É preciso fundamentar.
Isso significa que o relato de experiência não pode ficar solto, nem apoiado apenas na lei, nem apenas na descrição do cotidiano.
O texto precisa dialogar com fundamentos:
teóricos;
éticos;
políticos;
jurídicos;
normativos.
Mas com um alerta importante: a lei pode aparecer, a política pode aparecer, as normativas podem aparecer — só não podem virar o fundamento central da análise.
Porque uma coisa é usar a legislação como mediação. Outra, bem diferente, é deixar que o texto inteiro se reduza a ela.
Na perspectiva trabalhada na oficina, o rigor teórico não é um detalhe. Ele é parte da postura crítica, criativa, comprometida e competente que queremos fortalecer.
O sétimo passo: não confundir pesquisa com exposição
Outro ensinamento importante discutido com o grupo foi a diferença entre saber muito sobre um tema e precisar colocar tudo isso no artigo.
Nem tudo que foi pesquisado precisa entrar no texto.
Nem tudo que é verdadeiro ou interessante é necessariamente pertinente para aquela exposição.
Se uma autora vai discutir supervisão de estágio, por exemplo, ela pode até conhecer toda a história da política de educação, das diretrizes curriculares e das normativas relacionadas à formação profissional. Mas isso não significa que tudo isso deva entrar no artigo.
A pergunta decisiva é:
qual é a relação dessa informação com o meu objeto e com a minha experiência concreta?
Se houver relação viva, concreta e analiticamente necessária, entra.
Se não houver, vira excesso.
E excesso, em artigo curto, geralmente atrapalha mais do que ajuda.
Então, como organizar a escrita na prática?
A lógica trabalhada na oficina pode ser resumida assim:
definir o objeto com tema, onde e quando;
formular um objetivo geral;
responder às seis perguntas sobre a experiência;
entender que essas respostas serão a parte final do desenvolvimento;
extrair dois temas do objeto para compor o início do desenvolvimento;
desenvolver esses temas com fundamentação;
só depois escrever introdução e considerações finais.
Em outras palavras: a gente começou o texto de trás para frente.
E isso não é erro. É estratégia.
Porque, quando se começa da experiência concreta, a escrita deixa de ser um exercício vazio e passa a ser um exercício de elaboração crítica do vivido.
Um cuidado final: não se cobre começar pelo artigo
Esse talvez seja um dos conselhos mais importantes.
Se ainda está difícil escrever o artigo, não comece por ele.
Comece pelo que é possível.
Comece respondendo as perguntas.
Comece organizando o objeto.
Comece formulando o objetivo.
Comece ampliando um resumo simples para um resumo expandido.
O artigo não precisa surgir como um salto. Ele pode surgir como desdobramento.
E, quase sempre, é assim que ele surge melhor.
Conclusão
Escrever um artigo acadêmico a partir da experiência profissional não é inventar uma grandiosidade que não existe.
É reconhecer que o trabalho profissional produz mediações, contradições, desafios, respostas, escolhas, limites, finalidades e conhecimento.
Toda assistente social que atua, analisa, registra, reflete e se posiciona já está lidando com matéria viva para produção acadêmica.
O problema, quase nunca, é ausência de experiência.
O problema costuma ser ausência de método para enxergar, organizar e desenvolver essa experiência como texto.
Foi isso que trabalhamos no Articula.
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