Como transformar uma experiência profissional em produção acadêmica na área do Serviço Social
- João Rafael

- 8 de mar.
- 6 min de leitura
Recentemente realizamos a primeira oficina do Articula – Laboratório de Escrita Crítica.
A proposta desse encontro foi simples e, ao mesmo tempo, extremamente poderosa: transformar experiências profissionais ou de estágio em produção acadêmica.
Muita gente vive situações riquíssimas no cotidiano do trabalho profissional, mas essas experiências acabam ficando apenas na memória ou na conversa entre colegas. O Articula nasce justamente para enfrentar esse problema.
A ideia é transformar experiência em reflexão — e reflexão em texto.
Este texto reúne o passo a passo que trabalhamos na oficina, para que quem não participou possa realizar o mesmo exercício e para que quem participou possa revisitar a proposta com mais calma.
A primeira pergunta que fiz na oficina foi:
Qual é o seu objetivo de carreira?
A primeira oficina do Articula — Laboratório de Escrita Crítica começou com uma pergunta simples, mas desconcertante:
Onde você quer chegar na sua trajetória profissional?
Em outras palavras:
qual é o seu objetivo de carreira?
Essa pergunta apareceu logo no primeiro slide da oficina e não foi por acaso.
Antes de falar de escrita acadêmica, antes de falar de relatos de experiência e antes de explicar qualquer método, foi necessário colocar uma questão anterior:
para que você quer produzir conhecimento?
Porque quando essa pergunta não está clara, acontece algo muito comum na vida profissional: as pessoas acumulam cursos. Mas os cursos não necessariamente constroem uma trajetória.
Viramos especialistas em acumular certificados, mas não em construir direção profissional.
Por isso, o exercício inicial da oficina foi simples:
parar alguns minutos e refletir sobre onde se quer chegar na profissão.
O que isso tem a ver com escrever relatos de experiência?
A resposta é direta.
Produção acadêmica não é apenas escrever textos.
Produção acadêmica é estratégia de carreira.
Participar de eventos, publicar trabalhos e produzir reflexão sobre a prática profissional pode significar muitas coisas, como por exemplo:
fortalecer o currículo
disputar espaços acadêmicos
construir autoridade intelectual na profissão
ingressar em um mestrado
ampliar possibilidades de trabalho
sistematizar experiências profissionais
Por isso o Articula não é apenas uma oficina de escrita.
Ele é um espaço de orientação intelectual sobre a trajetória profissional.
Onde entra a especialização nesse processo
Durante a oficina também ficou claro que o Articula não surge isoladamente.
Ele nasce dentro de um projeto maior da Escola Profissional de Luta.
Esse projeto inclui, entre outras iniciativas, a Especialização em Fundamentos do Trabalho em Serviço Social .
A especialização trabalha uma dimensão fundamental da profissão: os fundamentos teóricos e históricos do trabalho profissional.
O Articula, por sua vez, trabalha uma outra dimensão:
a produção intelectual a partir da experiência profissional.
Em outras palavras:
a especialização aprofunda os fundamentos, o Articula ajuda a transformar experiência em produção acadêmica.
As duas coisas se complementam.
O que é o Articula – Laboratório de Escrita Crítica
O Articula é um espaço coletivo de orientação para produção acadêmica.
Aqui trabalhamos com uma ideia muito simples:
Toda assistente social tem uma experiência que pode se transformar em conhecimento.
Essa experiência pode ser:
uma situação vivida no estágio supervisionado
uma intervenção profissional
um dilema ético vivido no cotidiano do trabalho
uma prática institucional que gerou reflexão
uma experiência bem-sucedida ou um impasse profissional
O objetivo do laboratório é transformar essas experiências em produção acadêmica, especialmente no formato de relatos de experiência.
É importante deixar claro uma coisa:
o foco aqui não é escrever documentos técnicos, como relatórios ou pareceres.
O foco é produção acadêmica.
Isso significa produzir textos que dialoguem com eventos científicos, seminários e publicações.
Toda assistente social tem uma experiência para compartilhar
Uma das ideias centrais da oficina foi a seguinte:
toda assistente social tem uma experiência que pode virar conhecimento.
Às vezes, inclusive, são experiências aparentemente simples que revelam questões profundas sobre o trabalho profissional.
Durante a oficina, várias articulantes começaram a compartilhar exemplos concretos de situações vividas no trabalho. Essas experiências incluíam, por exemplo:
dilemas éticos enfrentados no cotidiano institucional
conflitos entre orientação técnica e exigências institucionais
experiências marcantes em visitas domiciliares
desafios no trabalho com usuários das políticas públicas
situações de violência institucional ou burocrática
Esses exemplos mostram algo importante:
o cotidiano profissional é cheio de situações que merecem ser analisadas.
O primeiro passo para escrever: identificar o objeto
Depois dessa discussão inicial, a oficina avançou para um ponto fundamental da Fórmula Intelectual de Luta.
O primeiro passo de qualquer produção intelectual é definir:
o objeto.
Objeto não é o tema.
Objeto é a realidade concreta que será analisada.
Por exemplo, uma assistente social pode dizer que quer escrever sobre “visita domiciliar”. Mas isso ainda não é objeto.
Objeto é algo mais específico, como por exemplo:
uma experiência de visita domiciliar em determinada política pública; um dilema ético vivenciado durante uma visita; uma situação específica ocorrida em determinado atendimento.
Ou seja:
o objeto nasce da experiência concreta vivida no trabalho profissional.
Para ajudar a definir o objeto, utilizamos uma fórmula simples:
Objeto = TEMA + ONDE + QUANDO
Por exemplo:
Tema: visita domiciliar
Onde: no CRAS de determinado território
Quando: durante determinado período de atuação profissional
Quando esses elementos se articulam, o objeto deixa de ser apenas um tema genérico e passa a ser uma experiência concreta que pode ser analisada.
Depois vem o objetivo geral
Depois de identificar o objeto, entra o segundo elemento da Fórmula Intelectual de Luta:
o objetivo geral.
O objetivo geral responde à pergunta:
o que você quer fazer com esse objeto?
Para ajudar nessa construção, utilizamos outra fórmula simples:
Objetivo geral = VERBO no INFINITIVO + OBJETO
Alguns exemplos de objetivos possíveis são:
analisar uma experiência profissional
refletir sobre um dilema ético
discutir limites institucionais do trabalho profissional
problematizar determinada prática
Perceba que o objetivo não é descrever o que aconteceu.
O objetivo é refletir sobre o que aconteceu.
Uma ideia importante: experiência não é apenas narrativa
Relato de experiência não é apenas contar uma história.
Um relato de experiência precisa responder a uma pergunta fundamental:
o que essa experiência revela sobre o trabalho profissional?
Ou seja:
a experiência é o ponto de partida.
A reflexão é o que transforma essa experiência em produção acadêmica.
A ideia central da oficina
Durante a oficina trabalhamos com uma pergunta simples:
Como transformar uma experiência vivida em um texto acadêmico?
Para responder a essa pergunta, utilizamos um exercício estruturado.
Esse exercício consiste em responder seis perguntas norteadoras.
As perguntas norteadoras da escrita
Sobre o que você quer falar? Tema e delimitação da sua experiência.
Onde e quando aconteceu? Contextualização do local e período.
Qual era o problema, desafio ou questão? A situação que mobilizou sua intervenção.
Quais foram as ações desenvolvidas? O que você efetivamente fez.
Quais foram os principais desafios, limites ou aprendizados? Barreiras, tensões e o que você aprendeu.
Qual reflexão, conclusão ou mensagem essa experiência gerou? O que você quer deixar como reflexão final.
Como essas perguntas viram um resumo
Para um resumo simples, é obrigatório responder:
Pergunta 1, Pergunta 2 e Pergunta 6.
Para um resumo expandido, todas as perguntas devem ser respondidas.
Ou seja:
Resumo simples = perguntas 1 + 2 + 6
Resumo expandido = perguntas 1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6
Escrever para publicar: o Seminário Nacional de Fundamentos do Trabalho em Serviço Social
Um dos objetivos da oficina foi justamente incentivar as participantes a transformarem suas experiências em trabalhos acadêmicos para publicação.
Uma das oportunidades concretas para isso é o Seminário Nacional de Fundamentos do Trabalho em Serviço Social.
A proposta foi escrever para publicar no Seminário até 05 de abril.
As modalidades de submissão são:
Resumo simples até 1500 caracteres texto sem parágrafo
Resumo expandido: entre 1501 e 6000 caracteres
Artigo completo: entre 10 e 15 laudas
👉 Pode submeter até dois trabalhos, sozinha/o ou em coautoria.
Para consultar todas as normas, acessar o edital e enviar seu trabalho, basta acessar:
Uma provocação final
Se você é assistente social, pense por um momento:
qual experiência do seu trabalho profissional merece ser analisada?
Talvez seja uma intervenção bem-sucedida. Talvez seja um dilema ético. Talvez seja um conflito institucional. Ou talvez seja uma situação inesperada que revelou algo importante sobre o exercício profissional.
A verdade é que toda assistente social tem uma experiência que pode virar reflexão.
E quando a experiência se transforma em reflexão, ela deixa de ser apenas vivida.
Ela passa a produzir conhecimento.
É exatamente esse o objetivo do Articula — Laboratório de Escrita Crítica.




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